O Grupo

Decorria o Verão de 1979 quando um grupo de jovens de Cadima, sentindo que algo faltava na sua terra em que pudessem ocupar os tempos livres de forma mais saudável e edificante, tiveram a feliz ideia de criar um Rancho Folclórico em Cadima, a exemplo do que existia nas terras vizinhas.

Recorde-se que nesta freguesia já havia existido na década de vinte um rancho de danças populares em Aljuriça e outro em Cadima, ambos de efémera duração. No lugar de Pontes houve uma belíssima Tuna, que abrilhantou os bailes da Sociedade Recreativa Cadimense durante cerca de vinte e cinco anos, extinguindo-se em princípios da década de cinquenta. Existiu também a partir de 1910 e durou cerca de quarenta anos um “Zé Pereira” que animava as festas da região e em Cadima, já na década de sessenta existiu a interessante “Orquestra Bela Vista”.

Efectivamente, na década de setenta nota-se uma imensa lacuna no campo, não só desportivo, como no lúdico/cultural. Esse pequeno grupo de jovens, depois de contactar elementos suficientes, organizou uma Comissão Directiva de homens maduros, com alguma experiência de vida, capazes de dinamizar a constituição de um rancho, e iniciaram-se de imediato as recolhas e os ensaios das cantigas e das danças antigas da região, sob a indicação de pessoas idosas, conhecedoras do assunto, também convidadas para esse efeito e a orientação de um ensaiador experimentado.

Enquanto isso, a Comissão pede apoio à Direcção da União Recreativa de Cadima, que o concedeu na medida do possível, criando uma secção cultural, onde integrou o Rancho, gerida exclusivamente pela respectiva Comissão.

Em Janeiro de 1980, foi empossada nova Direcção da União Recreativa de Cadima, que aceitou e deu continuidade a esta causa do folclore, enquanto criava novas actividades, como o teatro, o cinema, o futebol filiado na Associação de Futebol de Coimbra e o Motocross (que já existia), mas agora filiado na respectiva Federação, cujas provas eram integradas no Campeonato Nacional de Motocross.

Quanto ao folclore, esta Direcção, por sugestão do seu presidente, entendeu por bem dar ao Rancho um carácter mais sério, procurando a sua filiação na recém–criada Federação do Folclore Português, cuja visita para o efeito solicitou de imediato, sem se conhecer propriamente as consequências.

Para uma consulta preliminar, a primeira visita da Federação, na pessoa do seu Vice-Presidente o saudoso Sr. José Maria Marques e alguns acompanhantes, verificou-se no dia 04 de Março de 1980 e, por sugestão da mesma, foi esta data considerada a data da fundação do Rancho, por marcar uma viragem nos seus destinos. Também nesta data, depois de uma consulta aos elementos do rancho, foi escolhido entre diversas sugestões para sua designação futura, o nome de Grupo Típico de Cadima.

José Maria Marques deu-nos a definição exacta de folclore. Explicou que esta palavra, tão gasta e maltratada que anda, às vezes na boca dos políticos com grandes responsabilidades, não significa Carnaval… Adiantou que a palavra “Folk-lore” destinada a designar de modo sintético as antiguidades populares isto é, costumes, contos, lendas, tradições, crenças, adágios, superstições, cantigas, danças, enfim tudo o que relacionado possa estar com um país e o seu povo, foi criada pelo arqueólogo inglês, William Jonh Thomas, precisamente a 22 de Agosto de 1846.

Depois de indicadas as linhas mestras, pelas quais se rege aquela organização e as condições mínimas que um Rancho deve reunir para ser aceite a sua filiação, foi feita uma apreciação ao estado do rancho. As danças, cantigas e músicas já ensaiadas foram quase todas consideradas pelo Conselho Técnico da Federação como folclóricas e regionais, o que era já bastante positivo, face às perspectivas dos visitantes e um estímulo muito grande para todos os elementos e directores.

A par da representação do folclore, que não se esgota na representação das danças, impunha-se igualmente a representação da etnografia regional, traduzida nos trajes usados na época, primeiras décadas do século XX, desde que genuínos e confirmados mediante peças de vestuário, documentos antigos ou testemunhos de pessoas idosas de idoneidade comprovada. Foi então encetada uma profunda pesquisa de tudo o que sugerisse tradição popular, com incidência tanto na área folclórica como etnográfica, que são em suma a memória de um povo.

Nesta fase, houve muitas discórdias em relação às exigências da Federação, aceites por todos ao princípio, mas acatadas agora só por alguns, e aos vícios do ensaiador, que tinha também alguns apoiantes, mesmo da Comissão Directiva, que se julgavam absolutos e únicos conhecedores da verdade, não concordando com as directrizes de técnicos, estudiosos da matéria. Muitos elementos debandaram, incluindo alguns da própria Comissão. Estes não se entendiam entre si e foram abandonando o barco, até que os restantes pediram a demissão do cargo pouco depois.

A Direcção da União Recreativa de Cadima ficou com o menino nos braços, tinha de o criar e foi o que fez, diga-se, com muito empenho e competência.

Por sugestão da Federação, foi despedido o ensaiador profissional e convidados novos elementos mais interessados em dar ao espectáculo a seriedade da cultura popular tradicional, que não apenas o entretenimento recreativo, com os floreados nas danças e trajes revisteiros ou carnavalescos, tão do agrado do ensaiador. Os ensaios passaram a ser dirigidos por um ou outro elemento do grupo, que assistira à recolha das danças, tendo sido novamente chamados a testemunhar alguns idosos, foliões na sua mocidade.

Revolveram-se arcas e sótãos, avivaram-se as memórias esquecidas dos mais idosos, na procura de informação fidedigna sobre os trajes usados em épocas recuadas e mais representativos das tarefas agrícolas, romarias e outros, recuando no tempo até onde foi possível encontrar testemunhos credíveis. Palmilharam-se muitos quilómetros na busca de tecidos sem fibras sintéticas, semelhantes aos antigos, constituídos apenas de fibras naturais de linho, lã e algodão, sem se ter propriamente conhecimentos aonde dirigir-se para encontrá-los. Foi tarefa árdua, mas valeu a pena.

Após todo este trabalho de recolha e reconstituição, acompanhado de perto pelos responsáveis técnicos da Federação, foi o Grupo Típico de Cadima registado nos livros daquela grande agremiação sob o N.º853 em 15 de Julho de 1981, com a presença da Direcção da Federação.

Não sendo o mais antigo, já havia vários na região, foi porém o primeiro Rancho do nosso concelho e redondezas a ser considerado pela Direcção da Federação como fiel intérprete da cultura tradicional da região a que pertence. Desde então o Grupo procurou ser fiel aos fins para que foi criado e à legitimidade então conferido, pelas recolhas conseguidas, sua preservação e divulgação, tendo em vista a preciosa identificação cultural e colectiva deste povo, numa altura em que se vê cada vez mais envolvido no turbilhão da cultura global.

E, como corolário desta breve história, cabe lembrar aqui o significativo número de pessoas, homens e mulheres, jovens na sua esmagadora maioria que, como elementos activos, seja como directores, músicos, na cantata ou na dança, passaram pelo Rancho preparando e executando as centenas de actuações realizadas ao longo dos anos.

Como disse um conhecido etnógrafo, “um Rancho é sempre fruto de um punhado de pessoas, para quem o voluntariado não é palavra vã, unidas por essa espantosa força de solidariedade, enraizada num ideal de fraternidade que vem do principio dos tempos, a qual alicerça a base das grandes realizações colectivas, por efémera que seja a sua passagem ou existência”.

Para finalizar, cabe recordar que um dos passos mais importantes foi a sua emancipação, a fim de ultrapassar diversos problemas de ordem burocrática e financeira. O Rancho por escritura Notarial de 16/02/1997, publicada no Diário da República III série de 17/04/1997, constituiu-se em associação independente, desvinculando-se assim da União Recreativa de Cadima, situação que lhe trouxe significativas melhorias em termos administrativos.

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